Família Vitalino entre os 10 novos Patrimônios Vivos de Pernambuco
6 de agosto de 2026Conheça os 10 novos Patrimônios Vivos do Estado de Pernambuco
Eleitos nesta quinta (6), artistas são oriundos de manifestações culturais como maracatu, medicina tradicional indígena, samba e coco, entre outros; eles receberão bolsa vitalícia e participarão de iniciativas de ensino e aprendizagem
O elo dos pernambucanos com a cultura popular mais uma vez se renova hoje (6) em Pernambuco: os 10 novos Patrimônios Vivos do Estado foram anunciados nesta quinta, após votação realizada pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC). São eles: Teco Agamenon (Triunfo), Terreiro de Mãe Amara (Recife), Mestre João Paulo (Nazaré da Mata), Barracão Mãe Nadja (Recife), Gres Preto Velho (Olinda), Maracatu Cruzeiro do Forte (Recife), Mestra Di (Olinda), Família Vitalino (Caruaru), Mestre Zé Negão (Camaragibe), Juliana Pankararu (Jatobá).
Com os novos artistas e grupos nomeados, Pernambuco agora conta com 125 Patrimônios Vivos. Em um estado no qual a cultura é prática diária, a eleição desses artistas garante a difusão da pluralidade das nossas manifestações, garantindo a transmissão dos saberes que dão cara à identidade pernambucana.
Os eleitos receberão o título oficialmente em 17 de agosto, data que marca a abertura da 19ª Semana Estadual do Patrimônio Cultural de Pernambuco e o Dia do Patrimônio Cultural. “Este processo envolveu a escuta dos candidatos e da comissão de pareceristas. Um exame detalhado de todas as candidaturas neste que é o concurso mais importante para a premiação da cultura popular de Pernambuco”, aponta Antiógenes Viana, presidente do CEPPC.
“Hoje é o dia que o Governo de Pernambuco reconhece, através do Conselho de Preservação do Patrimônio, os novos patrimônios vivos que passam, a partir de hoje, a ter esse papel de transmitir seus saberes e tradições. São mestras e mestres, grupos, que são notório saber nesses fazeres que falam da nossa identidade enquanto pernambucanos”, ressalta Renata Borba, presidente da Fundarpe, instituição que integra o Conselho e é responsável por gerir as políticas relacionadas aos Patrimônios Vivos.
Todo ano podem ser eleitos até 10 Patrimônios Vivos. Neste ano, inscreveram-se 205 concorrentes – a maior quantidade de inscrições já registrada.
Criada em 2002, a concessão do título de Patrimônio Vivo de Pernambuco é uma das principais políticas públicas de valorização da cultura popular no Estado. O título prevê uma bolsa vitalícia a mestres e grupos selecionados via edital público lançado anualmente. Atualmente, os valores são R$2.479,41 (indivíduos) e R$4.958,85 (grupos). Como contrapartida, os Patrimônios participam de programas de ensino e aprendizagem organizados pelo Governo do Estado por meio de órgãos como Fundarpe,Secretaria de Cultura e Secretaria de Educação.
“Tivemos a honra hoje de estar na Casa dos Conselhos para esta votação, reconhecendo fazedores de cultura que representam manifestações da nossa cultura popular, valorizando saberes tradicionais de Pernambuco”, declara Ana Paula Jardim, secretária interina de Cultura de Pernambuco.
“Neste dia histórico em que deliberamos sobre os 10 novos Patrimônios Vivos, dentre eles duas mulheres de representações potentes nas tradições indígena e da capoeira. Temos terreiros, tanto religiosos quanto em suas representações, um de maracatu e outro da escola de samba. Este ano trouxemos um aquilombamento, uma pretitude para dentro desse contexto de todo o Estado de Pernambuco”, ressalta Elinildo Marinho, vice-presidente do conselho.
CONCURSO DE PATRIMÔNIO VIVO 2026 – Novidades importantes marcaram o edital deste ano para mestres e grupos que desejavam o título de Patrimônio Vivo. A principal delas diz respeito à acessibilidade: uma das possibilidades de inscrição era o formato semi-oral, que permitiu aos candidatos e candidatas realizar a apresentação e defesa de suas trajetórias por meio de vídeo, sem a obrigatoriedade de elaboração de um texto escrito.
Outra iniciativa nova ocorreu na etapa de defesa das candidaturas, que pôde ser realizada de forma presencial ou on-line, a critério dos candidatos.
A eleição é feita pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural. Além de representantes do Governo, o CEPPC é composto de integrantes da sociedade civil (eleitos) e pessoas de notório saber (indicados), e, em relação ao concurso de Patrimônio Vivo, o trabalho do órgão envolve analisar o edital, discutir questões relacionadas ao concurso, realizar audiências públicas, fazer a audição da defesa dos concorrentes e eleger os mestres e grupos.
CONHEÇA OS 10 NOVOS PATRIMÔNIOS VIVOS DE PERNAMBUCO
TECO DE AGAMENON – Início e Tradição: Agamenon Gonçalves Lima Filho, o Teco de Agamenon, é brincante e artesão da tradição do Careta em Triunfo-PE desde 1965 (quando tinha 8 anos). Aprendeu na prática a confeccionar máscaras, chapéus, relhos e vestimentas com os mais velhos.
Ensino e Oficinas: Dedica sua vida a repassar esse saber cultural para crianças e jovens em seu quintal, escolas e projetos. Expandiu sua atuação para outros municípios e estados (como no Ceará, em parceria com o SESC), além de expor e comercializar suas peças em feiras de artesanato local.
FAMÍLIA VITALINO – Linhagem e Tradição: O grupo é formado por descendentes diretos de Mestre Vitalino, com foco na linhagem de seu filho, Severino Vitalino. Há mais de 60 anos, atuam no Alto do Moura (Caruaru-PE) e mantêm há 54 anos suas atividades na mesma residência e oficina histórica.
Domínio do Saber-Fazer (“Escola Vitalina”): Atualmente na quarta e quinta gerações, a família preserva todo o ciclo produtivo da arte figurativa em argila (extração, preparo do barro, modelagem, paleta de cores tradicional e queima), retratando o cotidiano e a cultura do povo agrestino.
MESTRE ZÉ NEGÃO – Origem e Formação: Nascido José Manoel dos Santos em 1950, de ascendência negra e indígena, trabalhou desde a infância no corte de cana. Iniciou sua vivência na cultura popular aos 13 anos, passando por folguedos, escolas de samba, Cavalo Marinho, ciranda e coco de roda.Guardião do Coco de Senzala: Como Mestre, preserva o Coco de Senzala, manifestação afro-indígena com ritmo e cadência ancestral dos engenhos. Cria composições autorais inspiradas em sonhos e registradas por sua companheira, Mestra Fátima, abordando a luta contra o racismo e o trabalho na terra.
Ações Comunitárias e o Projeto LAIA: Radicado em Camaragibe-PE desde 1978, fundou o Projeto Negão (1994) e o Laboratório de Intervenções Artísticas – Laia (2003). Atuou ativamente no desenvolvimento do Loteamento João Paulo II, articulando desde mutirões para moradia e saúde até a criação do espaço cultural Canto das Memórias.
JULIANA PANKARARU – Identidade e Origem: Indicada pelo Grupo Curumim Gestação e Parto, Juliana Maria da Silva (Juliana Pankararu) é uma mulher indígena de 52 anos, residente no Território Indígena Aldeia Saco dos Barros, em Jatobá (Sertão de Pernambuco).
Saberes Ancestrais e Medicina Tradicional Indígena: Atua como mendeira (benzedeira), raizeira e parteira tradicional. Aprendeu por meio da oralidade com sua mãe, avó e tias, utilizando plantas do território indígena para chás, banhos e garrafadas.
MESTRA DI – Origem e Identidade: Nascida em Olinda (PE) em 1973, Adriana Luz do Nascimento (Mestra Di) é uma mulher afroindígena e periférica, mãe de duas filhas e com uma trajetória marcada pelo frevo (onde foi aluna do Mestre Nascimento do Passo) e pela capoeira.
Carreira na Capoeira: Iniciou suas práticas aos 13 anos (1985) no Centro de Capoeira Angola Mãe sob o ensino de Mestre Sapo. Formou-se Contramestra em2011 e foi diplomada e reconhecida internacionalmente como Mestra de Capoeira Angola em 2016 e 2019.
Pionorismo Internacional e Atuação: Em 1997, tornou-se a primeira mulher brasileira a lecionar Capoeira Angola na Europa, lecionando por anos na Alemanha e na Itália antes de retornar ao Brasil em 2004 para atuar em eventos e projetos voltados a mulheres capoeiristas.
MARACATU CRUZEIRO DO FORTE – Origem e Fundação: Fundado em 1929 no bairro dos Torrões (zona oeste do Recife), o grupo surgiu espontaneamente do convívio de trabalhadores rurais da Zona da Mata Norte. Com quase um século de atuação, é uma referência histórica do Maracatu de Baque Solto no ambiente urbano.
Sede e Ação Sociocultural: Atualmente localizado no bairro do Cordeiro, o grupo desenvolve um trabalho sociocultural focado na formação de artesãos. Ensina jovens e adultos a bordar e confeccionar os figurinos, adereços e golas tradicionais, capacitando membros da comunidade para o mercado de trabalho.
GRES PRETO VELHO – Origem e Identidade: Fundado em 24 de dezembro de 1974 pela tradicional Família Lobo e por lideranças como Mestre Zuza, o Preto Velho fica no Sítio Histórico de Olinda (Alto da Sé). É a única escola de samba em atividade contínua no município, representando mais de 50 anos de afirmação do samba e das tradições afro-brasileiras na cidade.
Formação e Transmissão de Saberes: Funciona como um espaço comunitário de ensino contínuo de percussão, dança, confecção artesanal de indumentárias e gestão cultural. A famosa “Bateria Nota 10” é o principal símbolo desse processo educativo que envolve crianças, jovens e adultos, principalmente em ensaios e oficinas aos domingos.
BARRACÃO DE MÃE NADJA – Origem e Identidade: Fundado em 1996 no bairro do Ibura (Recife) por Mametu Baléginam Nadja de Angola Goméia, o Terreiro Kaiangu Kia Itembu (Abassá Axé Oyá Balé Omim) é um centro sagrado do Candomblé de Nação Angola (matriz Bantu). Atua como um espaço de resistência, fé, apoio social e memória ancestral para a comunidade periférica local.
Metodologia de “Escola Viva”: O terreiro funciona como uma escola viva de formação comunitária. A transmissão do conhecimento ocorre na prática diária e no convívio intergeracional por meio da oralidade, observação, repetição ritual e mutirões.
MESTRE JOÃO PAULO – Trajetória e Título: Nascido em Vicência e radicado em Nazaré da Mata (Mata Norte de PE), Mestre João Paulo tem mais de 40 anos dedicados ao Maracatu de Baque Solto (Maracatu Rural). Ficou popularmente conhecido como o “Papa do Maracatu” após o lançamento de seu primeiro CD em 2002, sendo reconhecido como um dos maiores poetas e mestres de sua geração.
Mestria e Transmissão de Saberes: É fundador, presidente e mestre do Maracatu Leão Misterioso (criado em 1990). Ensina de forma oral e prática a novos brincantes tanto a poética (versos, rimas e improvisos) quanto o artesanato e adereços (confecção de golas, chapéus, surrões e guiadas). Serviu de inspiração e formação para diversos outros mestres da cultura popular.
TERREIRO DE MÃE AMARA – Origem e Identidade: Fundado em 18 de junho de 1945 por Mãe Amara de Xangô Aganjú (Obá Meji) no bairro de Dois Unidos (Recife-PE), possui mais de 80 anos de atuação contínua na preservação, salvaguarda e difusão da tradição e cultura nagô em Pernambuco.
Liderança Matriarcal e Transmissão: Organizado sob uma estrutura organizacional e familiar matriarcal, a liderança e os saberes ancestrais são mantidos por suas descendentes diretas (como a Yalorixá Maria Helena Mendes Sampaio e suas sucessoras), que garantem a formação contínua por meio da oralidade e vivência ritual.
Projetos Culturais e Políticos: É berço e articulador de iniciativas culturais e sociais como o Afoxé Oyá Alaxé, o Balé Nagô Ajô, o Coral Amadê Korin Nagô e espetáculos formativos. Destaca-se também pelo pioneirismo ao criar a primeira Rede de Mulheres de Terreiro do Brasil, fortalecendo a liderança feminina e o combate ao racismo religioso.
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Foto da votação e do conselho: Silla Cadengue/Fundarpe


