O país dos “Caras-Pintadas” virou o país dos espectadores?

O país dos “Caras-Pintadas” virou o país dos espectadores?

29 de julho de 2026 Off Por blogem

A história recente do Brasil mostra que as maiores transformações políticas não nasceram nos gabinetes, mas nas ruas. Em 1992, os “caras-pintadas” provaram que uma juventude mobilizada, de forma pacífica e democrática, poderia pressionar as instituições diante de graves denúncias de corrupção, contribuindo para o processo que culminou no impeachment do então presidente Fernando Collor. Anos depois, entre 2013 e 2016, milhões de brasileiros voltaram às ruas em manifestações que, embora marcadas por diferentes pautas e visões políticas, exerceram enorme influência sobre o cenário nacional e antecederam o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Independentemente das posições políticas de cada cidadão sobre esses episódios, há um fato inegável: a participação popular foi protagonista. A democracia ganhou voz quando brasileiros decidiram que não bastava reclamar nas conversas do dia a dia; era preciso ocupar os espaços públicos de forma pacífica para exigir respostas das autoridades.

A reflexão que fica é inevitável: onde está essa mesma indignação hoje?

O Brasil continua convivendo com denúncias, investigações, suspeitas de irregularidades, escândalos envolvendo agentes públicos dos mais diversos Poderes, debates intensos sobre a atuação de ministros dos tribunais superiores, do Executivo, do Legislativo e de outras instituições. Em um ambiente de permanente tensão política, seria natural esperar uma sociedade igualmente vigilante, crítica e mobilizada.

No entanto, percebe-se um contraste. As redes sociais se transformaram no principal palco da indignação. Curtidas, compartilhamentos e hashtags muitas vezes substituíram a participação cívica organizada. A velocidade da informação trouxe também a velocidade do esquecimento. Um escândalo rapidamente é sucedido por outro, e a revolta coletiva parece durar apenas até a próxima manchete.

Isso não significa que toda manifestação seja necessária ou que qualquer denúncia justifique mobilizações. Em um Estado Democrático de Direito, acusações devem ser investigadas e julgadas pelas instituições competentes, com respeito ao devido processo legal. Mas também é verdade que uma democracia saudável depende de cidadãos atentos, capazes de cobrar transparência, responsabilidade e prestação de contas de todos os ocupantes de cargos públicos, independentemente de partido, ideologia ou Poder da República.

A participação popular nunca deveria ser seletiva. Se ontem milhões foram às ruas para combater aquilo que consideravam errado, a coerência democrática exige que o mesmo espírito crítico permaneça vivo diante de qualquer suspeita que envolva autoridades públicas. Democracia não é silêncio conveniente nem indignação por conveniência política; é vigilância permanente.

Talvez a pergunta mais importante não seja onde estão as manifestações, mas onde está o cidadão que acredita que sua voz ainda pode fazer diferença. A história mostra que mudanças profundas acontecem quando a sociedade decide participar. E essa participação não precisa nascer do ódio ou da violência, mas da coragem de defender princípios, exigir responsabilidade e lembrar que nenhum agente público seja do Executivo, do Legislativo, do Judiciário ou de qualquer outra instituição deve estar acima do escrutínio da sociedade e da lei.

Por Oscar Mariano.
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Foto: Divulgação