R$ 47 BILHÕES EM EMENDAS: E SE ESSE DINHEIRO FOSSE INVESTIDO NAS NOSSAS CRIANÇAS? – Por Fernando Santos, Juíz de Direito Aposentado do TJPE

R$ 47 BILHÕES EM EMENDAS: E SE ESSE DINHEIRO FOSSE INVESTIDO NAS NOSSAS CRIANÇAS? – Por Fernando Santos, Juíz de Direito Aposentado do TJPE

23 de fevereiro de 2026 Off Por blogem

Em menos de 20 anos, poderíamos ter um outro Brasil.

Fui abandonado em uma caixa de sapatos, recém-nascido, numa praça pública de João Pessoa, em 1960. Se o Estado brasileiro tivesse me esquecido ali – como esquece hoje milhões de crianças –, eu não estaria escrevendo este artigo. Fui salvo pela adoção, pelo amor do Sargento Edson e de Dona Luíza, e por uma cadeia de oportunidades que transformou um menino de caixa de sapatos em juiz de direito com mais de trinta anos de magistratura. Minha história é a prova viva de que investir em uma criança muda o destino de uma nação.
Mas eu sou a exceção. E não deveria ser. O que me move como pré-candidato a deputado federal não é a ambicão política – é a indignação com os números que o próprio governo federal nos apresenta.
Os números que o Brasil precisa enxergar
Em 2025, segundo dados oficiais do Portal da Transparência da CGU, o governo federal empenhou R$ 47,07 bilhões em emendas parlamentares e pagou efetivamente R$ 31,54 bilhões – o maior valor nominal da história. Para 2026, o Congresso já aprovou R$ 61 bilhões. São cifras monumentais. Mas para onde vão?
Mais da metade – 54,49% – vai para a saúde. Não questiono a importância da saúde. Questiono o que sobra para o resto. Quando olhamos para as áreas que formam o futuro de uma nação, o quadro é desolador:
Área Valor em Emendas % do Total Tendência 2026
Educação ~R$ 1,58 bi ~3,4% Queda ↓
Esporte e Lazer R$ 1,65 bi 3,50% –
Cultura < R$ 500 mi < 1% Corte de R$ 700 mi
Assistência Social ~R$ 2,49 bi ~5,3% Variação eleitoral
Fontes: Portal da Transparência/CGU (2025); IPEA (2025); Central das Emendas (2026).
Somando educação, esporte, cultura e assistência social, chegamos a pouco mais de R$ 6 bilhões – cerca de 13% do total de emendas. Enquanto isso, a saúde sozinha abocanha R$ 25,65 bilhões. Não se trata de tirar da saúde. Trata-se de perguntar: por que não investimos o equivalente nas crianças que serão o Brasil de amanhã?
O paradoxo da assistência social: bilhões que não chegam
Um estudo do IPEA publicado em 2025 revelou algo que deveria estar na primeira página de todos os jornais: as emendas parlamentares já representam 45% de todo o orçamento federal da assistência social. Mas – e aqui está o paradoxo – metade dos municípios brasileiros não recebeu um centavo sequer dessas emendas em 2022 e 2023.
Como é possível que bilhões de reais circulem pelo orçamento e não cheguem a quem mais precisa? A resposta é simples e dolorosa: porque a distribuição dessas emendas obedece a critérios políticos, não técnicos. Municípios com parlamentares articulados recebem; municípios sem padrinho político ficam à míngua. É o oposto da universalização que o Estatuto da Criança e do Adolescente exige e que a Constituição Federal garante.
Eu atuei por quase 7 anos como Juiz Regional da Infância e Juventude no Agreste de Pernambuco, cobrindo 42 municípios. Vi de perto o CRAS sem psicólogo, o CREAS funcionando em sala emprestada, o Conselho Tutelar sem carro, sem telefone, sem dignidade. E vi, também, o que acontece quando se investe de verdade: firmei convênios com o SESC e o SENAC que mudaram a vida de adolescentes em conflito com a lei, oferecendo-lhes o que nunca tiveram – educação profissional, esporte, cultura, pertencimento.
A criança invisível no orçamento
Talvez o dado mais revoltante de toda essa pesquisa seja o seguinte: “criança e adolescente vulnerável” não existe como categoria no orçamento federal. Não há uma coluna, um filtro, uma linha no Portal da Transparência que permita ao cidadão saber exatamente quanto o Brasil destina à proteção integral de seus meninos e meninas em situação de risco.
Essa população aparece fragmentada, diluída, pulverizada entre funções orçamentárias: um pedaço na educação básica, outro na assistência social, outro em direitos da cidadania, outro em saúde. É como se o Estado dissesse: “a criança existe em tudo e, portanto, não precisa existir em lugar nenhum”. Essa invisibilidade orçamentária é uma forma de violência institucional.
A proposta: e se investissemos de verdade?
Imagine comigo. Se o Brasil destinasse à educação básica, ao esporte, à cultura e ao lazer de crianças e adolescentes vulneráveis o equivalente ao que hoje se destina em emendas parlamentares – algo em torno de R$ 47 bilhões por ano –, o que teríamos em 20 anos?
Teríamos uma geração inteira que passou pela escola em tempo integral – não a escola de faz de conta, mas a escola que alimenta, protege, ensina, inspira e qualifica. Hoje, a LOA 2025 cortou R$ 4,8 bilhões da ação de implantação de escolas em tempo integral. Com R$ 47 bilhões/ano, poderíamos universalizá-la.
Teríamos adolescentes que, em vez de serem capturados pelo tráfico, foram capturados pelo esporte, pela música, pela dança, pelo teatro, pela programação, pela robótica. Hoje, esporte e lazer recebem meros 3,5% das emendas. Cultura, menos de 1%.
Teríamos Conselhos Tutelares equipados, CRAS e CREAS com equipes completas, casas de acolhimento dignas, programas socioeducativos que realmente socioeducam. Teríamos um SUAS que funciona para todos os municípios – não apenas para os que têm padrinho em Brasília.
Teríamos, em 20 anos, menos presídios e mais universidades. Menos violência e mais cidadania. Menos miseráveis e mais contribuintes. Menos desespero e mais dignidade.
Não é utopia. É matemática. É política pública com lastro em dados. É o que países que investiram em suas crianças – da Coreia do Sul à Finlândia, do Uruguai à Costa Rica – fizeram, em prazos semelhantes, com resultados inequívocos.
O que defendo como Deputado Federal
Não basta denunciar. É preciso propor. Por isso, minha pré-candidatura se sustenta em bandeiras concretas, construídas a partir de três décadas de magistratura e da vivência diária com a rede de proteção:
• Criação de uma rubrica orçamentária específica para “Proteção Integral da Criança e do Adolescente”, tornando visível e rastreável cada centavo destinado a essa população.
• Piso nacional de remuneração para conselheiros tutelares, assistentes sociais, psicólogos e educadores sociais da rede SUAS/SINASE.
• Vinculação obrigatória de percentual das emendas parlamentares para educação básica, esporte, cultura e lazer de crianças e adolescentes – com critérios de equidade regional, não de conveniência política.
• Fortalecimento do sistema socioeducativo com o Projeto Juventude Cidadã, de requalificação profissional e reinserção social de adolescentes em conflito com a lei.
• Transparência radical na execução de emendas, com painel público de acompanhamento por município e por público-alvo, para que a sociedade saiba se o dinheiro está chegando a quem precisa.
O Brasil que podemos ter
Cada criança abandonada num CRAS sucateado, cada adolescente entregue ao sistema socioeducativo sem nenhuma perspectiva de futuro, cada menino e menina que a escola perdeu porque não havia escola integral, esporte, música ou sequer uma refeição digna – cada um deles é uma promessa que o Estado brasileiro quebrou.
Os R$ 47 bilhões de emendas parlamentares não são dinheiro de deputado nem de senador. São dinheiro do povo. E o povo tem o direito de exigir que esse dinheiro construa futuro, não apenas reproduza poder.
Eu sei o que é ser uma criança sem Estado. Sei o que é depender de um ato de amor para existir. E sei, com a certeza de quem sentenciou milhares de processos na Vara da Infância, que investir na criança é o ato mais inteligente, mais econômico e mais justo que um país pode realizar.
Se investirmos nas nossas crianças hoje o que gastamos em emendas, em menos de 20 anos teremos um outro Brasil. Não é promessa. É projeto. É compromisso. É urgência.
José Fernando Santos de Souza
Juiz de Direito Aposentado – Tribunal de Justiça de Pernambuco
Advogado – OAB/PE 68.040
Pré-candidato a Deputado Federal por Pernambuco – PRD/Solidariedade
Presidente da AANE
Caruaru/PE – Fevereiro de 2026
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Foto: Divulgação