Entre a Nostalgia e a Esperança: Reflexões de um Pré-Candidato que Acredita no Brasil – Por José Fernando Santos de Souza
24 de janeiro de 2026Juiz de Direito Aposentado do TJPE, Advogado (OAB/PE 68.040) e Pré-Candidato a Deputado Federal por Pernambuco
Nasci em 1960. Fui abandonado recém-nascido em uma caixa de sapatos, numa praça pública de João Pessoa. Poderia ter sido apenas mais uma estatística trágica, mais uma criança esquecida pelo destino. Mas fui acolhido, amado, e tive a oportunidade de construir uma vida dedicada à Justiça e à proteção daqueles que, como eu um dia fui, encontram-se em situação de vulnerabilidade.
Pertenço a uma geração que viveu o Brasil da Copa de 1970, do tricampeonato que uniu a nação em torno de uma televisão em preto e branco, quando as famílias se reuniam e as crianças brincavam nas ruas sem medo. Era o tempo do guaraná Champagne Antarctica gelado, da pasta Kolynos que hoje já não existe mais, dos bailes nos clubes de bairro onde os jovens se encontravam sob o olhar atento dos mais velhos.
Em João Pessoa, minha cidade natal, os cinemas Plaza e Municipal, no centro, eram catedrais da sétima arte, onde famílias inteiras iam assistir aos filmes do momento. As músicas que tocavam nos rádios — Roberto Carlos, Elis Regina, Tim Maia — ainda hoje ecoam em nossos ouvidos como trilha sonora de um tempo que, apesar de suas imperfeições, preservava certos valores fundamentais.
O Contraste Que Dói na Alma
Olho para o Brasil de hoje e meu coração se aperta. O que vejo em grande parte da produção cultural que alcança nossa juventude? Apologia ao crime, naturalização do uso de drogas ilícitas, banalização da violência, objetificação do ser humano. As letras que antes falavam de amor, de esperança, de sonhos, foram substituídas por conteúdos que envergonhariam nossos avós.
E o mais grave: questionar essa realidade tornou-se quase um ato de coragem temerária. Falar abertamente contra o tráfico de drogas, defender um programa nacional sério de combate aos entorpecentes, pode custar caro a quem se atreve. Vivemos tempos em que a verdade se tornou subversiva e a defesa dos valores fundamentais é tratada como retrógrada.
Há quem diga que cada um faz o que quer da própria vida, que ninguém tem o direito de “meter o bedelho” na existência alheia. É a filosofia do “deixa estar” elevada a princípio moral supremo. Mas essa pretensa liberdade irrestrita é uma armadilha, especialmente quando se trata de nossas crianças e adolescentes, que são bombardeados diariamente por mensagens que os conduzem à destruição.
Uma Candidatura Sem Padrinhos, Mas Com Propósito
Ao me lançar pré-candidato a Deputado Federal por Pernambuco, não tardei a perceber a realidade crua da política brasileira. Não tenho padrinho político. Não disponho de fortunas para financiar campanhas milionárias. Não ofereço vantagens a quem me apoiar, senão o compromisso com uma causa que considero sagrada.
Os políticos profissionais, aqueles que transformaram o serviço público em negócio particular, olham para minha candidatura com indiferença ou desdém. Para eles, candidato sem dinheiro é candidato sem viabilidade. E talvez tenham razão, segundo a lógica perversa que domina nosso sistema eleitoral.
Mas eu me recuso a aceitar essa lógica como definitiva.
Por Que Insisto?
Insisto porque carreguei, durante mais de trinta anos de magistratura, a responsabilidade de decidir sobre o destino de milhares de crianças e adolescentes. Como Juiz Regional da Infância e Juventude, percorri 42 municípios do Agreste pernambucano, conhecendo de perto a realidade de jovens abandonados, explorados, violentados, aliciados pelo crime organizado.
Insisto porque sei que, por trás de cada menor em conflito com a lei, existe uma história de ausência do Estado, de famílias desestruturadas, de escolas que não acolhem, de comunidades dominadas pelo medo.
Insisto porque acredito que o Brasil precisa de vozes que falem em nome daqueles que não têm voz, que defendam aqueles que não podem se defender.
Mas, acima de tudo, insisto pelos meus seis netos.
Quando olho nos olhos de cada um deles, vejo o Brasil que ainda pode ser. Vejo a inocência que precisa ser protegida, os sonhos que merecem florescer, o futuro que temos a obrigação de construir. Não posso, em sã consciência, cruzar os braços enquanto o país que deixarei para eles se deteriora a cada dia. Que avô seria eu se, podendo fazer algo, escolhesse o conforto do silêncio? Que legado deixaria se, tendo voz, preferisse me calar?
Cada proposta que defendo, cada bandeira que levanto, carrega o rosto dos meus netos — e, com eles, o rosto de todas as crianças e adolescentes de Pernambuco e do Brasil. É por eles que me levanto todas as manhãs disposto a continuar essa luta, mesmo quando as portas se fecham e os apoios não chegam.
Minhas Bandeiras
Não me apresento com promessas mirabolantes nem com soluções mágicas. Apresento-me com propostas concretas, nascidas da experiência prática:
Defendo o fortalecimento dos CRAS e CREAS, para que a assistência social chegue efetivamente às famílias que necessitam. Proponho um piso nacional digno para os Conselheiros Tutelares, esses guerreiros anônimos que trabalham na linha de frente da proteção à infância, muitas vezes em condições precárias. Luto pela reforma do sistema socioeducativo, para que as medidas aplicadas aos adolescentes em conflito com a lei cumpram sua função pedagógica e ressocializadora, e não sejam apenas antessalas do sistema prisional adulto.
A Voz do Povo
Há um ditado antigo que diz: “A voz do povo é a voz de Deus”. Se o povo de Pernambuco não quiser, não apoiar o que estou defendendo, aceitarei com serenidade o veredicto das urnas. Não sou daqueles que se apegam ao poder ou que veem na política um fim em si mesmo.
Mas, enquanto houver fôlego em meus pulmões e esperança em meu coração, continuarei levantando a voz pelas crianças e adolescentes deste Estado e deste país. Continuarei denunciando o abandono a que são relegados, a negligência dos poderes constituídos, a hipocrisia de uma sociedade que se diz protetora mas permite que milhões de jovens sejam devorados pelo crime, pelas drogas, pela prostituição.
Um Chamado à Consciência
Escrevo estas linhas não apenas como pré-candidato, mas como cidadão que testemunhou seis décadas de história brasileira. Como alguém que poderia ter sido mais uma vítima, mas que, pela graça de Deus e pelo amor de pais adotivos, teve a chance de servir. E como avô de seis netos que merecem herdar um Brasil melhor do que este que hoje se apresenta diante de nós.
Tempos difíceis exigem pessoas dispostas a enfrentá-los. Não com violência, não com radicalismo, mas com firmeza de propósitos e clareza de valores. Se os dias são de trevas, que sejamos luz. Se a sociedade caminha para o abismo, que ergamos nossas vozes em alerta.
Não sei o que o futuro reserva para minha candidatura. Sei apenas que não me calarei. Que continuarei defendendo aqueles que considero os mais preciosos membros de nossa sociedade: nossas crianças e nossos adolescentes.
Porque eles são o Brasil de amanhã. E o amanhã que construirmos para eles será o espelho da sociedade que escolhemos ser hoje.
José Fernando Santos de Souza é Juiz de Direito Aposentado do Tribunal de Justiça de Pernambuco, com mais de 30 anos de experiência na magistratura, advogado, Presidente da AANE (Associação de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais) e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/PE. É pré-candidato a Deputado Federal pela Federação PRD/Solidariedade.



