Rodoviária Caruaruense: o fim de uma era, o legado de um povo – por José Fernando

Rodoviária Caruaruense: o fim de uma era, o legado de um povo – por José Fernando

19 de janeiro de 2026 Off Por blogem

Por José Fernando Santos de Souza
Juiz de Direito Aposentado do TJPE, Advogado (OAB/PE 68.040) e Pré-candidato a Deputado Federal
Há momentos na história de uma cidade em que o encerramento de uma atividade empresarial transcende os limites do mercado e atinge profundamente a alma coletiva de um povo. É o que ocorre agora com o anúncio do encerramento definitivo das atividades da Rodoviária Logo Caruaruense, após mais de seis décadas de serviços ininterruptos prestados a Pernambuco.
Em novembro de 1959, quando os empresários Abdias Vescenslau da Silva, Edécio Francisco de Melo e José Victor de Albuquerque fundaram a Rodoviária Caruaruense, Caruaru ainda ensaiava seus primeiros passos rumo à consolidação como Capital do Agreste. A ferrovia, que havia chegado em 1896, já não bastava para atender às demandas de uma cidade cuja vocação comercial e de integração regional se mostrava cada vez mais evidente. Era preciso algo novo, algo que pudesse alcançar os recantos mais distantes do Agreste e conectar nosso povo às oportunidades que se descortinavam no horizonte.
A Caruaruense, como carinhosamente passou a ser chamada, nasceu para cumprir essa missão histórica.
O Visionário João Lyra Filho
Posteriormente adquirida por João Lyra Filho, natural de Lagoa dos Gatos, a empresa encontrou em suas mãos a visão necessária para transformar-se de uma simples transportadora em verdadeiro símbolo de conexão e desenvolvimento regional. João Lyra Filho, que começou a vida como caixeiro de balcão, feirante e caminhoneiro, enxergou no transporte de passageiros não apenas um negócio, mas o sistema circulatório que faria pulsar a economia do interior pernambucano.
Sob sua gestão e, posteriormente, de seus sucessores, a Caruaruense expandiu suas rotas, conectando Caruaru ao Recife, a Santa Cruz do Capibaribe, Toritama, Bezerros, Gravatá, São Caetano, Vitória de Santo Antão e tantos outros municípios que compõem o mosaico humano e econômico do nosso Agreste.
Mais que Uma Empresa: Um Patrimônio Afetivo
Quem, como eu, dedicou quase sete anos de sua vida percorrendo os 42 municípios da região do Agreste como Juiz Regional da Infância e Juventude, sabe bem o que representava avistar um ônibus da Caruaruense nas estradas poeirentas do interior. Era a certeza de que, por mais distante que estivesse a comunidade, havia uma ponte que a ligava ao resto do mundo.
Para o trabalhador rural de Belo Jardim que precisava chegar ao hospital em Caruaru, para o estudante de Pesqueira que sonhava com a universidade no Recife, para a mãe de Arcoverde que ansiava por abraçar o filho que trabalhava na capital, a Caruaruense não era apenas um meio de transporte — era a materialização da esperança, a garantia de que a distância não seria impedimento para a realização dos sonhos.
Quantas histórias aqueles ônibus transportaram ao longo de mais de sessenta anos! Quantos reencontros, quantas despedidas, quantas lágrimas de saudade e de alegria testemunharam! A Caruaruense fez parte da memória afetiva de gerações de pernambucanos. Foi companheira silenciosa de momentos decisivos na vida de milhares de famílias.
O Reconhecimento aos Proprietários
Neste momento de despedida, é imperioso reconhecer os esforços hercúleos empreendidos pelos proprietários da empresa para mantê-la em funcionamento, mesmo diante das adversidades que há muito assolam o setor de transporte rodoviário de passageiros no Brasil.
O desequilíbrio econômico-financeiro que levou ao encerramento das atividades não surgiu da noite para o dia. Foi resultado de uma tempestade perfeita que se abateu sobre o setor: a concorrência desleal do transporte clandestino, o aumento exponencial dos custos operacionais, a dificuldade de renovação de frota, os impactos devastadores da pandemia de COVID-19 que alteraram permanentemente os padrões de mobilidade da população, e a ausência de políticas públicas efetivas de apoio ao transporte coletivo intermunicipal.
Manter uma empresa de transporte funcionando nesse cenário adverso, por tanto tempo, garantindo empregos e prestando serviço público essencial, é digno de reconhecimento e gratidão. Os proprietários da Caruaruense, ao longo de décadas, não apenas gerenciaram uma empresa — carregaram sobre os ombros a responsabilidade de manter viva uma artéria fundamental para a integração do Agreste pernambucano.
A Postura Digna no Encerramento
Merece destaque especial a postura ética e responsável adotada pela empresa no momento do encerramento de suas atividades. Ao garantir o pagamento integral dos direitos trabalhistas de todos os colaboradores e o cumprimento rigoroso das obrigações tributárias, a Caruaruense encerra sua trajetória da mesma forma como a conduziu ao longo de mais de seis décadas: com seriedade, responsabilidade e respeito às pessoas.
Em tempos em que tantas empresas encerram suas atividades deixando para trás um rastro de trabalhadores desamparados e dívidas impagáveis, a conduta da Caruaruense deve ser registrada como exemplo de compromisso ético empresarial.
O Legado que Permanece
A Rodoviária Caruaruense encerra suas atividades, mas seu legado permanecerá inscrito na história de Pernambuco. Foram mais de 66 anos de serviços prestados, milhões de quilômetros rodados, milhares de empregos gerados, e uma contribuição inestimável para que o Agreste saísse do isolamento e se tornasse a potência econômica que é hoje.
A empresa foi parte fundamental no fortalecimento da Feira de Caruaru, no escoamento da produção têxtil de Santa Cruz do Capibaribe e Toritama, no impulso ao turismo regional e na circulação de pessoas em eventos culturais e religiosos que fazem parte da identidade pernambucana.
Uma Reflexão Necessária
O fim da Caruaruense deve servir como alerta para o poder público e para toda a sociedade. A mobilidade é direito fundamental, garantido constitucionalmente. O transporte coletivo intermunicipal cumpre função social indispensável, especialmente para as populações de menor renda que não dispõem de veículo próprio.
Quando uma empresa tradicional como a Caruaruense encerra suas atividades, é preciso questionar: que políticas públicas falharam? Que regulamentações precisam ser revistas? Como garantir que o vazio deixado não seja preenchido apenas pela clandestinidade e pela precarização do serviço?
Como pré-candidato a Deputado Federal por Pernambuco, comprometo-me a levar essa discussão para o Congresso Nacional. O transporte intermunicipal de passageiros precisa de um novo marco regulatório que equilibre sustentabilidade econômica das empresas, qualidade do serviço prestado e acessibilidade tarifária para a população.
Gratidão Eterna
À Rodoviária Caruaruense, aos seus fundadores, aos proprietários que a conduziram ao longo das décadas, aos milhares de motoristas, cobradores, mecânicos e funcionários que dedicaram suas vidas a fazer aqueles ônibus rodarem pelas estradas de Pernambuco, o nosso mais profundo agradecimento.
Vocês foram muito mais que uma empresa de transporte. Foram construtores de pontes entre pessoas, famílias e comunidades. Foram artífices da integração regional. Foram parte essencial da história de Caruaru e de Pernambuco.
A Caruaruense parte, mas permanece viva na memória e no coração de todos nós que, em algum momento de nossas vidas, embarcamos em seus ônibus levando sonhos e esperanças.
Que Deus abençoe e proteja todos aqueles que fizeram parte dessa história.
José Fernando Santos de Souza
Juiz de Direito Aposentado do Tribunal de Justiça de Pernambuco
Advogado — OAB/PE 68.040
Presidente da AANE — Associação de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais
Membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/PE
Pré-candidato a Deputado Federal por Pernambuco (Federação PRD/Solidariedade)
Caruaru, janeiro de 2026.
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Foto: Divulgação