Versos de Uma Vida Deixada na Praça. O Gesto de Uma Mãe – por José Fernando
18 de janeiro de 2026Versos de Uma Vida Deixada na Praça. O Gesto de Uma Mãe
Nove meses te carreguei no ventre,
sentindo cada chute, cada movimento,
e meu coração, partido ao meio,
sabia que não tinha sustento.
Não foi abandono, foi entrega,
um ato de amor desesperado,
pois entre a fome e a esperança,
escolhi te dar um novo fado.
Na praça te deixei, meu filho,
não por não te querer demais,
mas porque o amor verdadeiro
às vezes dói, mas não se desfaz.
Que outras mãos te aquecessem,
que outro peito te alimentasse,
que a vida que eu não podia dar
em outro lar te alcançasse.
II. O Menino da Caixa de Sapatos
João Pessoa, mil novecentos e sessenta,
uma caixa de papelão na praça fria,
dentro dela, um recém-nascido,
esperando o amanhecer de um novo dia.
Sergeant Edson e Dona Luíza,
de mãos calejadas e bolsos vazios,
mas com o coração transbordando,
me acolheram como filho, sem desvios.
Não tinha berço de ouro,
nem enxoval de renda fina,
mas tinha colo, tinha afago,
tinha o amor que não declina.
Cresci entre a simplicidade,
aprendendo que a riqueza verdadeira
não se conta em moedas de prata,
mas em abraços de vida inteira.
III. O Caminho Improvável
Quem diria que aquele bebê
deixado ao relento da sorte,
um dia vestiria a toga,
transformando fraqueza em forte?
Dos bancos duros da escola pública
aos corredores da Justiça,
cada passo foi uma conquista,
cada vitória, uma dádiva.
Trinta anos de magistratura,
dezoito na Fazenda Pública em Caruaru,
e quase sete como Juiz da Infância,
fazendo brotar o que antes não havia luz.
Quarenta e dois municípios,
do Agreste pernambucano inteiro,
vi nos olhos de cada criança
o reflexo do meu próprio roteiro.
IV. O Juiz Que Foi Menino Abandonado
Quando sentava na cadeira do Juiz,
e via a criança diante de mim,
eu não via apenas um processo,
via a mim mesmo, via meu fim que virou início.
Cada sentença de adoção que assinei
era uma carta ao destino,
dizendo: “Esta criança terá
o que eu tive — amor genuíno.”
Quantas famílias eu formei!
Quantos filhos ganharam pais!
Quantas mães abraçaram seus sonhos
em audiências emocionais!
Eu era a prova viva
de que a vida pode mudar,
de que uma caixa na praça
pode virar um lar.
V. Gratidão à Mãe Que Me Deixou
Mãe que nunca conheci,
mulher de nome ignorado,
obrigado por não me jogar no lixo,
obrigado por ter me poupado.
Você não me jogou nos trilhos,
não me afogou em rio escuro,
você me deu uma chance,
me entregou a um futuro.
Talvez tenha chorado a noite inteira,
talvez nunca tenha esquecido,
mas saiba, onde quer que esteja:
seu gesto não foi em vão, foi cumprido.
Eu vivi. Eu amei. Eu casei.
Três filhos me chamam de pai,
seis netos me chamam de avô,
e sua coragem me trouxe até aqui, até onde estou.
VI. A Família Que Construí
Maria José, minha companheira,
mulher de fibra e de fé,
juntos erguemos uma casa
sobre a rocha, não sobre a areia que se vê.
Nossos filhos são a prova
de que o ciclo se quebrou,
de que o abandonado pode amar,
de que quem foi deixado, também ficou.
E os netos? Ah, os netos!
São a continuação da história,
são a certeza de que valeu,
são minha maior vitória.
Quando olho para trás,
vejo a caixa na praça distante,
mas quando olho para frente,
vejo amor multiplicante.
VII. O Chamado Continua
Agora, aos sessenta e quatro anos,
ainda há fogo neste peito,
ainda há luta a ser travada,
ainda há muito a ser feito.
Pelas crianças do Brasil,
pelos pequenos sem voz,
levantarei minha bandeira,
falarei por todos nós.
Pois quem foi achado na praça
sabe o valor de ser encontrado,
e enquanto houver uma criança sozinha,
meu trabalho não está acabado.
VIII. Oração Final
Senhor, que me tirou da caixa
e me colocou em mãos de amor,
obrigado pela vida que tenho,
obrigado por cada dor que virou flor.
Que minha história seja farol
para quem navega em mar escuro,
que meu testemunho seja prova
de que há esperança no futuro.
E quando meus dias findarem,
e eu prestar contas a Ti,
que possas dizer: “Bem-vindo, filho,
você honrou o que Eu fiz por ti.”
Para José Fernando Santos de Souza,
o menino da praça que se tornou Juiz,
o abandonado que deu família a tantos,
a prova viva de que Deus nunca desiste de nós.
Por José Fernando



