Por Que Deixo a Tranquilidade da Aposentadoria Para Lutar em Brasília; Uma história que começa numa caixa de sapatos e atravessa três décadas de toga
22 de janeiro de 2026Em 1960, numa praça pública de João Pessoa, alguém encontrou uma caixa de sapatos. Dentro dela, um recém-nascido, Eu. Minha mãe biológica não pôde me criar. Não a condeno — a vida impõe escolhas cruéis aos que nada têm. O Sargento Edson e Dona Luíza me acolheram, me deram nome, família, futuro. Deram-me a chance que toda criança merece e que tantas não recebem.
Essa história poderia ter terminado de muitas formas. Terminou com um concurso público, uma toga, e mais de trinta anos dedicados à Justiça de Pernambuco.
O Peso de Quem Sabe
Fui Juiz Titular da Vara da Infância e Juventude de Caruaru. Atendi 42 municípios do Agreste pernambucano. Recebi o Selo Diamante de eficiência do Conselho Nacional de Justiça.
Mas nenhum selo, nenhum título, nenhuma estatística traduz o que significa ter uma criança segurando sua roupa, olhando nos seus olhos e pedindo: “Tio, arranja uma família pra mim.”
Foram muitos os pedidos. Muitos os rostos. Muitas as noites em que voltei para casa carregando o peso de saber que as leis que temos não bastam, que os recursos são escassos, que o sistema falha com quem mais precisa de proteção.
Eu sei o que é ser essa criança. E sei o que é olhar para ela do outro lado da mesa, com o poder de decidir seu destino mas sem os instrumentos adequados para garantir que esse destino seja digno.
Por Que Agora
Estou aposentado. Tenho de que viver. Poderia, aos 64 anos, simplesmente descansar — e ninguém me cobraria por isso.
Mas há uma dívida que não se paga com silêncio.
O Brasil tem mais de 30 mil crianças em acolhimento institucional, muitas delas esquecidas pelo sistema. Os Conselheiros Tutelares, primeira linha de defesa dos nossos meninos e meninas, trabalham sem piso salarial nacional, sem estrutura, sem reconhecimento. Os CRAS e CREAS, que deveriam ser portas de entrada para a proteção social, funcionam precariamente em boa parte do país. O sistema socioeducativo, que deveria recuperar adolescentes em conflito com a lei, muitas vezes apenas os aprofunda no ciclo de violência.
Eu conheço esses problemas não por estatísticas — conheço-os pelos nomes das crianças que passaram pela minha vara.
O Que Proponho
Não vou a Brasília para ocupar gabinete. Vou para propor mudanças concretas:
Piso salarial nacional para Conselheiros Tutelares, porque quem protege nossas crianças não pode viver na precariedade.
Fortalecimento real dos CRAS e CREAS, com vinculação orçamentária e metas de atendimento.
Reforma do sistema socioeducativo, para que funcione como instrumento de recuperação, não de punição perpétua.
Agilização dos processos de adoção, porque criança não pode esperar os tempos da burocracia.
São propostas que nascem da experiência de quem sentou na cadeira de juiz e viu, dia após dia, o que funciona e o que não funciona.
Uma Escolha
Você pode votar em quem historicamente destina emendas parlamentares para manter redutos eleitorais cativos. Pode votar em quem constrói casas com dinheiro público e as “entrega” em época de campanha como se fossem presente pessoal — sabendo que esse bem é público e não pode sequer ser vendido. Pode até votar em quem compra seu voto, mesmo sabendo que isso é crime de abuso de poder econômico.
Ou pode votar em alguém que conhece o abandono por dentro. Que dedicou a vida profissional a proteger quem não tem voz. Que sabe redigir uma lei porque passou décadas aplicando-as.
Não serei mais um. Não tenho tempo para ser mais um, nem interesse em sê-lo.
Sou José Fernando Santos de Souza, Juiz de Direito Aposentado do Tribunal de Justiça de Pernambuco, presidente da AANE, defensor dos direitos humanos pela OAB/PE. E sou, antes de tudo, aquele bebê da caixa de sapatos que a vida transformou em instrumento de proteção para outros como ele.
É por isso que deixo a tranquilidade da aposentadoria. Porque Brasília precisa de quem conheça o problema não pelos relatórios, mas pela própria pele.
José Fernando Santos de Souza
Pré-candidato a Deputado Federal por Pernambuco
Federação PRD/Solidariedade.
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Foto: Divulgação



