{"id":126187,"date":"2026-01-18T10:26:42","date_gmt":"2026-01-18T13:26:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdoedvaldomagalhaes.com.br\/?p=126187"},"modified":"2026-01-18T11:54:50","modified_gmt":"2026-01-18T14:54:50","slug":"versos-de-uma-vida-deixada-na-praca-o-gesto-de-uma-mae-por-jose-fernando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoedvaldomagalhaes.com.br\/index.php\/2026\/01\/18\/versos-de-uma-vida-deixada-na-praca-o-gesto-de-uma-mae-por-jose-fernando\/","title":{"rendered":"Versos de Uma Vida Deixada na Pra\u00e7a. O Gesto de Uma M\u00e3e &#8211; por Jos\u00e9 Fernando"},"content":{"rendered":"<p>Versos de Uma Vida Deixada na Pra\u00e7a. O Gesto de Uma M\u00e3e<br \/>\nNove meses te carreguei no ventre,<br \/>\nsentindo cada chute, cada movimento,<br \/>\ne meu cora\u00e7\u00e3o, partido ao meio,<br \/>\nsabia que n\u00e3o tinha sustento.<br \/>\nN\u00e3o foi abandono, foi entrega,<br \/>\num ato de amor desesperado,<br \/>\npois entre a fome e a esperan\u00e7a,<br \/>\nescolhi te dar um novo fado.<br \/>\nNa pra\u00e7a te deixei, meu filho,<br \/>\nn\u00e3o por n\u00e3o te querer demais,<br \/>\nmas porque o amor verdadeiro<br \/>\n\u00e0s vezes d\u00f3i, mas n\u00e3o se desfaz.<br \/>\nQue outras m\u00e3os te aquecessem,<br \/>\nque outro peito te alimentasse,<br \/>\nque a vida que eu n\u00e3o podia dar<br \/>\nem outro lar te alcan\u00e7asse.<br \/>\nII. O Menino da Caixa de Sapatos<br \/>\nJo\u00e3o Pessoa, mil novecentos e sessenta,<br \/>\numa caixa de papel\u00e3o na pra\u00e7a fria,<br \/>\ndentro dela, um rec\u00e9m-nascido,<br \/>\nesperando o amanhecer de um novo dia.<br \/>\nSergeant Edson e Dona Lu\u00edza,<br \/>\nde m\u00e3os calejadas e bolsos vazios,<br \/>\nmas com o cora\u00e7\u00e3o transbordando,<br \/>\nme acolheram como filho, sem desvios.<br \/>\nN\u00e3o tinha ber\u00e7o de ouro,<br \/>\nnem enxoval de renda fina,<br \/>\nmas tinha colo, tinha afago,<br \/>\ntinha o amor que n\u00e3o declina.<br \/>\nCresci entre a simplicidade,<br \/>\naprendendo que a riqueza verdadeira<br \/>\nn\u00e3o se conta em moedas de prata,<br \/>\nmas em abra\u00e7os de vida inteira.<br \/>\nIII. O Caminho Improv\u00e1vel<br \/>\nQuem diria que aquele beb\u00ea<br \/>\ndeixado ao relento da sorte,<br \/>\num dia vestiria a toga,<br \/>\ntransformando fraqueza em forte?<br \/>\nDos bancos duros da escola p\u00fablica<br \/>\naos corredores da Justi\u00e7a,<br \/>\ncada passo foi uma conquista,<br \/>\ncada vit\u00f3ria, uma d\u00e1diva.<br \/>\nTrinta anos de magistratura,<br \/>\ndezoito na Fazenda P\u00fablica em Caruaru,<br \/>\ne quase sete como Juiz da Inf\u00e2ncia,<br \/>\nfazendo brotar o que antes n\u00e3o havia luz.<br \/>\nQuarenta e dois munic\u00edpios,<br \/>\ndo Agreste pernambucano inteiro,<br \/>\nvi nos olhos de cada crian\u00e7a<br \/>\no reflexo do meu pr\u00f3prio roteiro.<br \/>\nIV. O Juiz Que Foi Menino Abandonado<br \/>\nQuando sentava na cadeira do Juiz,<br \/>\ne via a crian\u00e7a diante de mim,<br \/>\neu n\u00e3o via apenas um processo,<br \/>\nvia a mim mesmo, via meu fim que virou in\u00edcio.<br \/>\nCada senten\u00e7a de ado\u00e7\u00e3o que assinei<br \/>\nera uma carta ao destino,<br \/>\ndizendo: &#8220;Esta crian\u00e7a ter\u00e1<br \/>\no que eu tive \u2014 amor genu\u00edno.&#8221;<br \/>\nQuantas fam\u00edlias eu formei!<br \/>\nQuantos filhos ganharam pais!<br \/>\nQuantas m\u00e3es abra\u00e7aram seus sonhos<br \/>\nem audi\u00eancias emocionais!<br \/>\nEu era a prova viva<br \/>\nde que a vida pode mudar,<br \/>\nde que uma caixa na pra\u00e7a<br \/>\npode virar um lar.<br \/>\nV. Gratid\u00e3o \u00e0 M\u00e3e Que Me Deixou<br \/>\nM\u00e3e que nunca conheci,<br \/>\nmulher de nome ignorado,<br \/>\nobrigado por n\u00e3o me jogar no lixo,<br \/>\nobrigado por ter me poupado.<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o me jogou nos trilhos,<br \/>\nn\u00e3o me afogou em rio escuro,<br \/>\nvoc\u00ea me deu uma chance,<br \/>\nme entregou a um futuro.<br \/>\nTalvez tenha chorado a noite inteira,<br \/>\ntalvez nunca tenha esquecido,<br \/>\nmas saiba, onde quer que esteja:<br \/>\nseu gesto n\u00e3o foi em v\u00e3o, foi cumprido.<br \/>\nEu vivi. Eu amei. Eu casei.<br \/>\nTr\u00eas filhos me chamam de pai,<br \/>\nseis netos me chamam de av\u00f4,<br \/>\ne sua coragem me trouxe at\u00e9 aqui, at\u00e9 onde estou.<br \/>\nVI. A Fam\u00edlia Que Constru\u00ed<br \/>\nMaria Jos\u00e9, minha companheira,<br \/>\nmulher de fibra e de f\u00e9,<br \/>\njuntos erguemos uma casa<br \/>\nsobre a rocha, n\u00e3o sobre a areia que se v\u00ea.<br \/>\nNossos filhos s\u00e3o a prova<br \/>\nde que o ciclo se quebrou,<br \/>\nde que o abandonado pode amar,<br \/>\nde que quem foi deixado, tamb\u00e9m ficou.<br \/>\nE os netos? Ah, os netos!<br \/>\nS\u00e3o a continua\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria,<br \/>\ns\u00e3o a certeza de que valeu,<br \/>\ns\u00e3o minha maior vit\u00f3ria.<br \/>\nQuando olho para tr\u00e1s,<br \/>\nvejo a caixa na pra\u00e7a distante,<br \/>\nmas quando olho para frente,<br \/>\nvejo amor multiplicante.<br \/>\nVII. O Chamado Continua<br \/>\nAgora, aos sessenta e quatro anos,<br \/>\nainda h\u00e1 fogo neste peito,<br \/>\nainda h\u00e1 luta a ser travada,<br \/>\nainda h\u00e1 muito a ser feito.<br \/>\nPelas crian\u00e7as do Brasil,<br \/>\npelos pequenos sem voz,<br \/>\nlevantarei minha bandeira,<br \/>\nfalarei por todos n\u00f3s.<br \/>\nPois quem foi achado na pra\u00e7a<br \/>\nsabe o valor de ser encontrado,<br \/>\ne enquanto houver uma crian\u00e7a sozinha,<br \/>\nmeu trabalho n\u00e3o est\u00e1 acabado.<br \/>\nVIII. Ora\u00e7\u00e3o Final<br \/>\nSenhor, que me tirou da caixa<br \/>\ne me colocou em m\u00e3os de amor,<br \/>\nobrigado pela vida que tenho,<br \/>\nobrigado por cada dor que virou flor.<br \/>\nQue minha hist\u00f3ria seja farol<br \/>\npara quem navega em mar escuro,<br \/>\nque meu testemunho seja prova<br \/>\nde que h\u00e1 esperan\u00e7a no futuro.<br \/>\nE quando meus dias findarem,<br \/>\ne eu prestar contas a Ti,<br \/>\nque possas dizer: &#8220;Bem-vindo, filho,<br \/>\nvoc\u00ea honrou o que Eu fiz por ti.&#8221;<br \/>\nPara Jos\u00e9 Fernando Santos de Souza,<br \/>\no menino da pra\u00e7a que se tornou Juiz,<br \/>\no abandonado que deu fam\u00edlia a tantos,<br \/>\na prova viva de que Deus nunca desiste de n\u00f3s.<br \/>\nPor Jos\u00e9 Fernando<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Versos de Uma Vida Deixada na Pra\u00e7a. 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